A angústia de fim de ano
- Débora Laks

- 21 de dez. de 2019
- 3 min de leitura

Estamos chegando ao final de dezembro. Certamente, logo encontrarei Luiza no elevador. Luiza e sua mala. Mas quem é Luiza? Ela é minha vizinha e nesta data costuma fugir dos festejos de fim de ano. Não lhe agrada o ritmo que a cidade fica neste período, então escapa para um lugar tranquilo.
Entretanto, no outro extremo, há quem entre na famosa “correria de fim do ano”. Estas pessoas vão até o Shopping Center mais próximo comprar presentes para todos que os rodeiam. Correm para ver quem não viram durante o ano. Também, anseiam em reatar com quem estejam estremecidos. Na televisão, assistimos as propagandas natalinas. Famílias perfeitas, que festejam sem rusgas, com decorações impecáveis e presentes incríveis. Portanto, o fim gera os mais diversos sentimentos. Talvez possa ocasionar um processo de luto pelo ano que se encerra. O que ficou para trás? O que não pôde ser feito? O sentimento de pesar é comum neste momento em que fazemos um balanço. Pode haver um desgosto pairando no ar. Nos abatemos pela ilusão perdida e pelos sonhos que não atingimos.
A famosa angústia de fim de ano
A convenção de que o ano se encerra em dezembro dá o que falar. Em alguns momentos, parece que o mundo vai acabar. Não haverá tempo! O tempo irá se esgotar logo ali! Bem-vinda angústia de fim de ano! Vamos revê-la? Talvez a principal aflição desta época seja gerada pelo ideal que fantasiamos. Imaginamos como finalizaríamos e nem sempre isso se concretiza.
Freud trouxe uma importante colaboração quando descreveu temas relativos ao narcisismo. Chamou a atenção para a etapa do desenvolvimento infantil, quando a criança desenvolve uma ideia de si relacionada ao desejo dos pais e das expectativas sociais, sendo cunhada pela onipotência infantil e pelos ideais de perfeição dos genitores. No desenvolvimento emocional saudável, vamos renunciando a onipotência narcísica infantil, ampliando as relações com a realidade externa (professores, líderes, ideais pessoais) e, desta forma, tolerando as inevitáveis frustrações da vida.
O poeta Manoel de Barros escreveu que “as coisas que não existem são mais bonitas”. Penso que esta compreensão nos atenta para a realidade, que não costuma ser nada perfeita. O autor justamente versa sobre “Uma didática da invenção” e em sua poética deixa clara a necessidade da delicadeza, humildade e perseverança para apreciarmos a vida. Formula, Manoel: “Para apalpar as intimidades do mundo é preciso saber - Que o esplendor da manhã não se abre com faca”...
As festas familiares costumam ter suas confusões e, em dezembro, a maioria das pessoas fecha o ano com alguns dias bons, outros ruins e, também, porque não dizer, alguns dias péssimos? Ainda que fechemos o ano com um superávit, normalmente a sensação não é de plenitude. Difícil, senão impossível, ser pleno 365 dias do ano.
Aproveite para renascer!
Então, levando em consideração os desacordos, as imperfeições e as insatisfações, que recursos você dispõe parater o melhor fim de ano possível?
Quem sabe este exercício seja útil, não só para finalizar o ano, mas como um projeto de vida? Se conseguirmos sair dos ideais e lutarmos para curtir o real, construindo um momento por vez, teremos bons resultados. Escrevendo parece simples, mas está muito longe de ser! Muito trabalho há em tolerar o real e buscar o viável.
Enfim, o ano finda e talvez se oportunize um renascimento. Renascemos toda vez que nos reencontramos e a cada nova história que iniciamos. Usamos corriqueiramente a expressão “ao nascer do dia”. Por que não poderíamos nascer outras vezes se o dia nasce a cada 24 horas?
Por fim, a escrita de novas narrativas de vida deve ser motivo para esperança. O frescor do novo pode suplantar o aborrecimento pela ausência de oportunidades, pelo fim. Geniais as pessoas que inventaram de convencionar o tempo, os dias, os meses e os anos. Parece que iniciamos o texto nos defrontando com o caos e 2020 já nos traz margem para boas perspectivas. Como diz a música: “Adeus ano velho! Feliz ano novo! Que tudo se realize, no ano que vai nascer!”. Boas festas!
Artigo publicado em: Zero Hora



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